De Fátima em Missão na América Latina: Brasil

DONOS DO CÉU

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Rebeka


Ontem á noite o Padre Carlos prontificou-se para celebrar a Santa Missa que tinha esta manhã num dos conventos de clausura de que somos capelães. Fiquei contente porque uma gripe agarrou-me, e a febre ainda não me deixa. Assim esta manhã tinha quase jurado que não sairia do quarto para ver se isto passava. Eram cerca de 10,30h quando o Ir. Abílio me chama para me dizer que estava uma senhora à porta. “Está com uma criança e diz que se chama Rebeka”, disse! O meu coração despertou-me um sentimento de ternura e gratidão. Fui. Era de facto a minha amiga Rebeka de que falei recentemente. Já estava melhor e vinha com um pato já depenado para o almoço, como gesto de agradecimento por ter podido sair do hospital. Vi-a bastante bem, embora ainda deprimida e algo triste. Tinha estado quase meia hora a bater à porta do outro lado.... quando a pequenina (que já cá tinha vindo de noite com a irmã de 9 anos) lhe continuava a dizer que o portão era aquele verde!

Conversamos. O tempo do seu internamento no hospital coincidiu com as duas semanas em que o marido não conseguiu trabalho. Agora ela está à procura de uma ocupação da parte da manhã, quando os meninos estão na escola, para poder estar com eles o resto do dia.

Da Fé ao Amor
Santo Agostinho dizia que quando uma pessoa se afasta da fé afasta-se de caridade, porque não podemos amar aquilo que não sabemos se existe ou não. Por outras palavras, a partir da fé reconhecemos e aceitamos os outros na sua bondade, nos seus valores e riquezas pessoais, e só a partir dessa aceitação podemos amá-los
Em muitos corações vive-se uma crise de amor. Não existe uma capacidade de dar-se, de pensar nos outros, de sair de si mesmo para servir, para dar. Esta crise de amor é resultado de uma crise de fé. Talvez nos faltem os esses olhos para descobrir em cada homem, em cada mulher a presença do amor de Deus, um amor que dignifique toda a existência humana.
É verdade que algumas más experiências no trato com os outros nos fazem desconfiados, cautelosos, "prudentes". Não é nada fácil oferecer o nosso tempo o nosso afecto a alguém que nos pode enganar, ou talvez pudesse chegar a dar-nos uma facada pelas costas. Mas para além destes pontos negros que nos fazem desconfiados diante de estranhos, há sempre a possibilidade de renovar a fé e de abrir janelas ao bem imenso presente nos outros.
Além disso, centenas de homens e mulheres que caminham ao nosso lado olham-nos com fé, com carinho, confiam em nós. Às vezes eles fazem-no muito para além de alguns erros que podessemos ter cometido contra eles. O seu olhar dignifica-nos, faz-nos redescobrir os valores que existem em nós mesmos, aquele amor que Deus nos tem, também quando somos pecadores.
Temos de pedir, cada dia, o dom da fé. Uma fé que nos permita crescer no amor. Uma fé que seja entrega, luta, alegria, apesar das falhas e fracassos.
Fé em quem procura acabar com o ciclo da corrupção com um pouco de honestidade. Temos que renovar essa fé que nos leva a crescer no amor.
É verdade que no céu já não faz falta ter fé. Mas agora, enquanto estamos a caminho, a fé nos faz olhar mais além, mais longe, mais no interior. Isso permite-nos vislumbrar que o amor é mais forte que o pecado e as misérias dos homens. Isso permite-nos entrar num mundo de bondade que tornam a vida mais bonita e que nos prepara para receber o dom do paraíso, o dom do amor eterno de Deus nosso Pai.


Tudo isto porque preferimos caminhar já hoje com os herdeiros do mundo que há-de vir, Os donos do Céu.
A minha gratidão para
ti,
Rebeka.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Em casa de Carmen Rosa

Carmen Rosa, é uma menina de 12 anos.
Quero contar-te em poucas palavras este cantinho da sua vida.
Vive no bairro da Era.
Ela é muito forte...pois cuida de mais dois irmãos e uma prima, e vive com a avó.



Esta senhora que vês na foto foi a sua mãe. Digo foi, porque não continua com os filhos. Mas está bem...concordo contigo: “É e será sempre a sua mãe!” Foi-se embora e vem a casa de dois em dois anos com mais um filho que deixa aqui nesta casa para que a avó cuide de todos.
A prima com uns quatro anos é filha de uma tia com perturbações mentais, e não se sabe onde pára agora. A avó já é idosa e quem tem de cuidar de todos é a Carmen Rosa.




Lava a roupa e também faz de comer quando a avó não pode. É ela que antes de ir para a escola deixa as coisitas preparadas para os mais pequenitos. Na verdade, preocupa-se que haja leite e pão em casa e tudo o resto. Por isso ela é forte e corajosa, mas também muito jovem. Faz de pai, mãe e de irmã mais velha!
Vivem nesta casota com muito poucas condições. Para a fotografia de grupo, fez questão de a fazer no seu jardim. A casa de banho é lá atrás...!
Quando visitei nestes dias, a senhora mãe dos meninos estava casualmente presente, e a preparar batatas para todos...também para o gato que até estava já a comer a sua parte. A avó tinha saído naquele momento.
A casa de tábuas encostada à parede de tijolos do vizinho, tem buracos por todos os lados. Estas crianças tossem muito..., não sei que possa ser. Sei como se pode evitar! Não tenho muito tempo para pensar. Há apenas que decidir.

Estou a contar-te esta história algo triste, mas pura e genuína, para reafirmar a minha gratidão a todos os que de uma maneira ou de outra tem visitado e colaborado com o

Centro de Solidariedade:

“Mão Amiga de Fátima”.

As “cerejas” ai recolhidas vão entrar nesta casa.
Com essa preciosa ajuda, vamos já nestes próximos dias fazer uma casita nova também de madeira e com telhas a sério. Uma cama mais, e uns roupas...!
Ainda bem que vi uns três gatos por ali..., ao menos estou certo que os ratos deixarão em paz estas crianças.
Há outros Mini-projectos de que vou dando notícia.


Estamos todos
de parabéns porque
Deus
faz maravilhas.

sábado, 22 de novembro de 2008

Quase um ano passou

Domingo, dia 23 de Novembro de 2008

Caríssimo amigo e amiga, irmão ou irmã, votos e desejos de um Santo Domingo e de todo o bem.
Neste dia de Cristo Rei desejo partilhar este Evangelho da liturgia de hoje.
Daqui também e sobretudo uma cartinha que escrevi para ti, para vós. É apenas para expressar a minha profunda gratidão pela vossa amizade e o vosso carinho ao longo deste ano que passei no Peru.
Lê o Evangelho que não te faz mal....Nele pensei e reflecti nas palavras que em gesto de despedida te queria dizer. Mas primeiro ganha tempo....e lê, sim lê porque é o Evangelho da Missa deste Domingo.

Evangelho segundo S. Mateus 25,31-46.

«Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos. O Rei dirá, então, aos da sua direita: 'Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.’ Então, os justos vão responder-lhe: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?’ E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: 'Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’ Em seguida dirá aos da esquerda: 'Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.’ Por sua vez, eles perguntarão: 'Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’ Ele responderá, então: 'Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.’ Estes irão para o suplício eterno, e os justos, para a vida eterna.» Da Bíblia Sagrada

Quase um ano passou...

Já quase de regresso a Portugal, de onde estive ausente nesta aventura da América Latina. Um pouco por desafio pessoal, no que sem querer se tornou numa experiência inigualável e fascinante; mas mais como serviço à Igreja para poder partilhar com os mais simples e pobres a mesma sorte, a mesma mesa, a mesma tristeza e angustia. Contudo certamente e muito mais a alegria, a esperança e sobretudo a Fé.
A nossa Missão dos Missionários Monfortinos aqui no Peru faz parte dum projecto mais amplo que nos vê empenhados ao serviço dos mais pobres do Terceiro Mundo. Esta “Delegação Geral Peru-Brasil” tem neste momento cerca de 30 missionários a trabalhar nestes dois países. No nosso grupo estão italianos, franceses, holandeses e naturalmente, quase a metade de peruanos. Estamos nestes arredores de Lima, onde as os bairros mais pobres do Peru fazem deste pais talvez o mais pobre de toda a América Latina. As pessoas vivem em barracas de esteiras e madeira, muitas delas sem tecto. Esgotos, luz, água quente!? Para muitos ainda uma miragem! A vida passada nas ruas empoeiradas faz conviver diariamente sem muitas condições, milhares de pessoas na mais extrema pobreza, miséria e abandono. A Igreja em geral está muito presente. Aqui a acção Missionária é constante, permanente e tem sempre todo o campo aberto.... pois há quase tudo por fazer. Por mais que se faça, parece que se está sempre a começar.
Num serviço gratuito, que foi constantemente animado pela paixão na missão que a Igreja tem para com os mais pobres, vi assim voar o tempo. Pude, com a ajuda de Deus ser presença amiga e constante com os mais desfavorecidos e necessitados juntamente com os meus colegas missionários à imagem de São Luís de Montfort.
Dizer mais com os gestos que com as palavras que os amava. Ouvir e compartir. Quem não concorda, mas escuta. A demonstração de amor requer mais do que palavras, precisa de escuta, partilha e solidariedade, tudo para que se sentissem amados por alguém. Sente-se amado quem é escutado. Foi determinante o tempo sem tempo. O anseio faminto de um povo esquecido e sofredor de uma presença que fosse ombro para as mágoas e também efectivas necessidades básicas como o pão para a boca. O interesse real pelas suas vidas, pelas suas almas pelo seu futuro que começa hoje levou-me sempre a um zelo constante pela sua felicidade. Muita solidão ....eu amo-te não diz tudo! Senti muitas vezes que este tom cinzento da solidão de muitos assumia uma cor diferente apenas com um sorriso e com um abraço.
O ambiente triste e pobre em que vivem muitos, leva ao afastamento e isolamento, e até abandono do resto e dos demais. Já Jesus dizia que era mais fácil amar os amigos...! Dos que nada tem e até o cheiro afasta, escuta-se a voz silenciosa:”porque te afastas....porque foges!?” E o coração fica inquieto! Dele brotam igualmente no silencio as as palavras: “Ama-me quando eu menos merecer, porque é quando eu mais preciso”.
Sempre se disse que os “olhos são as janelas da alma”. Muitos semblantes apagados, tristes e silêncios. Sim, muitos, tantos e tantos. E o mais triste e comovente são os das crianças. Olhos perdidos no tempo e vazios, quase a denunciar uma infância roubada porque crescidos demasiado depressa para a vida e para o nada, para a incerteza e para sofrimento! Crianças que parecem adultos e adultos que já parecem idosos! Sorriem pouco. Não há rostos de felicidade.
Sem nunca desanimar, vi e vivi situações difíceis de esquecer. Algumas destas até estão no Blog e, aí apenas ficam palavras com algumas imagens que nos dão que pensar! Sempre acreditei que a vida partilhada com alegria é mais bonita. Essa mesma alegria, por vezes até cinzenta...foi determinante para superar pacientemente episódios concretos, adquirindo o ritmo dum tempo que custava a passar! Não me sinto mais forte que ou outros, a minha fé também vacila! O mais inútil servo que Deus escolheu, assim era e é o que penso tantas vezes; para uma missão tão nobre: Ser Missionário. Aqui encontrei rostos, almas e corações que sem a mínima dúvida estão no caminho do Céu. O abandono, o sofrimento e a dor de tantos (e tão pequenos por vezes) para as grandes dificuldades que se lhes deparam, fazem de todos eles os eleitos e predilectos de Cristo. Nestas palavras, o meu pensamento está fixo naqueles que vós já conheceis, nos DONOS DO CÉU: OS POBRES. A eles Deus me enviou e com eles nunca me desamparou.
Ao abrir as mãos na fé e na oração pude abraçar a todos e coloca-los sobre o altar cada dia. Ofereci muitas e muitas vezes a Eucaristia por eles e com eles recolhendo-os sobre o Sacrifício de Cristo no altar. Nestes momentos senti sempre que havia anjos presentes, porque estes protegem, defendem e assistem os mais simples e pequenos...! Destes últimos, foram muitos os que eu erradamente pensei desamparados! Enganado estava! Sem uma mão na terra, ao menos visível aos meus olhos, havia e há continuamente quem os não esquece nem desampara: a nossa Mãe comum, Maria. A “Virgenzita” como tantos carinhosamente Lhe chamam! Nossa Senhora, Maria, foi, é e será sempre a Mãe Celeste que nunca abandona os que Nela confiam. A devoção à Santíssima Virgem está presente no amor que todos sentimos por Ela; e o povo Peruano tem-Na sempre como “Mamita do Céu” bem junta com o “Senhor de los Milagros”:Jesus. Aqui aprendi que quem está com Maria está com seu filho, e quem está com o Filho tem sempre Uma Mãe por perto! E mais: estar com os pobres é estar mais perto de Deus! Eles são os verdadeiros predilectos.
Nunca me foi recusado um só dos milhares de rosários que ia dando a quem Jesus me fazia encontrar no meu caminho. Das várias manifestações de fé que se sentem, é a abertura às coisas de Deus, e que mais toca o coração. Uma palavra amiga, um gesto de carinho, uma bênção, uma medalha, água benta ou seja um rosário....; tudo é sempre uma dádiva que não vem por acaso. Tudo isso a gente pura e simples vive e sente. Estas pequenas e ao mesmo tempo grandes ajudas da Graça, fazem com que um inteiro povo extremamente natural e simples, acolha e viva a dimensão da fé na própria vida quotidiana.
Neste momento queria pois apenas e só expressar a minha profunda e imensa gratidão a todos vós que ao longo deste tempo me acompanhais nesta missão que foi e é também vossa.
Muitas ou quase todas as acções de solidariedade –e foram muitas- que se puderam realizar, se devem a todos vós que quisestes partilhar com todos estes nossos irmãos o que o vosso coração vos inspirava e ditava. O que colocastes nas minhas mãos foi o que eu pude meter nas mãos, no coração e na mesa daqueles a quem Deus me enviava; ou aos quais Ela me conduzia. Agora posso dizer que os milhares de rosários ou de kgs de tudo e mais... foi apenas uma gota neste imenso mar... mas que certamente fez a diferença no dia e na hora em que irrigou a alma ou o coração em que foi partilhado.
Deus coloca nas nossas mãos o que quer e deseja que partilhemos.
O imenso bem que Deus faz com as nossas mãos e o que nelas coloca é sempre dom de Sua imensa bondade. Cada um de vós foi um irmão, irmã, pai e mãe não só para mim; mas sobretudo para os nossos “próximos” que até estavam bem longe. Fostes pois a minha grande família que me fez sentir durante esta minha presença aqui o vosso carinho. A vossa preciosa amizade fez desta partilha fraterna com que também eu pudesse transmitir mais alegria e esperança e contribuir para que um pedacinho de mundo fosse mais humano e mais justo. Cristo vive , sente e ama com as nossas pernas com os nossos braços, com os nossos corações...!
Das vezes que as mãos se abriam, aí estavam também as vossas! Porque por detrás das minhas, estava a generosidade de todos vós que sempre desejastes estar cada vez mais perto destes Donos do Céu.
Asseguro-vos que conseguistes um lugar bem junto de cada um, e eles bem sabeis são os predilectos, e porque o bem nunca será esquecido nem na terra nem no Céu.

Com muito “cariño”
Em Cristo, Maria e Montfort
Padre Luís

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Rara beleza




O processo de globalização deu origem não só a uma crescente interdependência, mas também a fortes desigualdades internacionais. Estas assimetrias, que caracterizam a ordem global, constituem a base das profundas desigualdades internacionais no que se refere à distribuição da riqueza. Mas as riquezas naturais, essas, o Peru tem muitas, e uma delas é a própria natureza.


As assimetrias são muitas, as desigualdades também... mas há uma rara beleza!
LAGO TITICACA
A cidade de Puno fica a 3,870 metros acima do nível do mar e está situada nas margens do Lago Titicaca. Inegavelmente, o lago Titicaca proporciona momentos de rara beleza. A 3820m, é o lago navegável mais alto no mundo. Com mais de 170km de comprimento, também é o maior lago na América do Sul. A sua altitude significa que o ar está extraordinariamente claro e as águas azuis são particularmente impressionantes. A área também é conhecida pelas suas danças folclóricas e enormes rebanhos de alpacas e lhamas. Há mais de setenta ilhas no lago, sendo a Ilha do Sol a maior e mais sagrada, que está do lado boliviano do Lago. Estas ilhas são habitadas há séculos e são frequentemente descritas como o lugar mais perto de que se pode chegar ao paraíso....

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O pão que não há em casa

A alegria da partilha. O pão que não há em casa, encontra-se nos numerosos comedores-cantinas. As instituições da Igreja tem encontrado nesta ajuda, a forma mais concreta de estar presente junto dos mais pobres.



Nos vários Comedores que se encontram na zona de Huaycan (arredores de Lima), alguns são mantidos pela Paróquia e por outras instituições Católicas. E diga-se a verdade, estes são bem mais apresentáveis e a comida é muito melhor.

Há pois, muitas destas cantinas populares do governo, que se apresentam muito degradadas....! Alguns dos que tenho visto são apenas um local rodeado por umas paredes de madeira e com esteiras a servir de tecto. O pó abundante faz com que nada pareça limpo e asseado!


Estas fotos que aqui publico são da Cantina-Comedor da Irmã Goretta. Nele estão inscritas cerca de 200 crianças que o frequentam ao almoço e ao jantar. Das várias vezes que por lá passo, tenho sempre um pouco de vergonha em fazer fotos (regra geral, o que sucede sempre); mas desta vez, depois de uns caramelos... e de umas cocegas aos mais pequenitos, lá disparei umas...!

Muita alegria. Rostos provados pela pobreza, mas alegres na mesa! Por momentos, o convívio parece apagar tantos vazios e incertezas dos que apenas conhecem o presente. Sim...o presente de hoje, porque o amanhã não existe!

"Tive fome

e destes-me

de comer..."

Jesus

sábado, 15 de novembro de 2008

Dívida no Hospital


Das muitas situações que se apresentam dia a dia neste contexto social em que se vive e sobrevive no Peru, e mais concretamente nestes subúrbios da grande Lima, há uma em particular que desejo partilhar hoje convosco. Sinto-me muito limitado... e com profundo sentido de impotência diante de realidades concretas que me ultrapassam e em que me fazem viver uma angustia daquelas que só o silêncio, a oração a Fé e a Esperança ; (e não pode faltar nenhuma delas), dão coragem para poder dar mais ânimo em aceitar o que o Bom Deus nos dá.


Há uns tempos atrás a Irmã Lucia chamou-me para visitar uns doentes. Fui.É apenas uma de tantas. Da visita que fiz neste grande bairro da Era, havia, pois a necessidade de uma presença diante da doença e da enfermidade que só o sacerdote pode dispensar nos sacramentos da Confissão e Comunhão que a Fé nos oferece para o bem das almas! Depois da visita aos vários doentes que vivem em quase extremo abandono e indigência; chegamos a casa por volta das do meio dia, sempre neste imenso deserto de pedras e terra negra, lugar onde vivem as irmãs da Sabedoria. Estava à nossa espera uma senhora que previamente tinha sido informada que eu devia passar por ali. Foi-me dito que ela estava um bocado em baixo... Depressão, etc. ..! Conversamos na capela das irmãs e a senhora (mais ou menos uns 35 anos) tinha problemas gravíssimos em família, e não só, mas sempre vivia com os seus quatro filhos, e com o marido que se ausentara por trabalho e vem de vez em quando com algum dinheiro. Rebeka era o seu nome. As dificuldades levaram-na ao extremo das forças, da coragem e das possibilidades. Para conseguir ir pagando a já grande divida da mercearia, e ainda ao necessário para cada dia, ela sai de casa às 6 da manha para regressar à noite pelas 9h. As crianças levantam-se sozinhas e partem para a escola. Ficam o resto do dia só em casa e pelas ruas.

Ontem à noite duas crianças, uma de uns 3 anos e uma outra de 9, vieram bater-me à porta.A mais velha falava-me que me conhecia, mas nem sei se por ser noite ou pelo abandono em que estavam... Não as conheci de lado nenhum! Perguntei de onde eram, e a maior que era a que falava, disse que era do bairro da Era. Deixei-a falar e, vinha para me pedir ajuda para conseguir trazer a mãe do Hospital. Perguntei como se chamava a mãe, e a resposta foi: Rebeka!Que calafrio que senti....!

Vinha pedir 100 soles (25€) que se deveriam levar ao Hospital para a mãe poder sair pagando as despesas. Só assim podia ter alta,.... pagando e saldar a divida do internamento!

Perguntei que tinha a mãe. Disse-me que ela estava com a menstruação, e um coágulo de sangue maior fez perder demasiado sangue e ela não passou bem. "Eu vi que na bacia estava uma coisa negra com muito sangue e até tive medo e chorei muito". (...) (...)
Neste momento fui buscar uns chocolates e uma boneca (tipo prima da Barby) que tinha sobrado da chocolatada....
Levantei o animo, e soube ainda que já há quatro dias que estão sós. A mãe já pode sair, tendo de pagar 140 soles que não tinham...
Com 9 anos... e a outra pequenina de uns dois ou três!? Creio que foi um aborto espontâneo... mas para uma criança se aperceber de toda a situação, das dificuldades que havia ...é verdadeiramente da herói. Certamente por iniciativa sua, saiu de casa com a mais pequena e veio por aí... Em busca de uma mão amiga! Vieram uns 3 km a pé para bater à porta e falar comigo. Não sei quem lhe disse onde vivia. Era longe e era noite.
Duas irmãs mais que menores..., mais que pequenas! Mas também mais que grandes na coragem...! Mais que grandes na responsabilidade e audácia de recorrer e caminhar em socorro e auxilio de uma presença que lhes faltava...! E, tudo... para poder ter a mãe em casa.
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Escrevi estas linhas no inicio desta semana, e hoje falei com a Irmã Lucia. O que realmente se passou foi exatamente como tinha tristemente imaginado. Um aborto expontâneo. No Hospital tiveram que fazer uma limpeza interna dos resíduos que ainda permaneceram. Tinha cinco meses. Extremamente debilitada e cheia de dores, depois de ter perdido muito sangue; agora a recuperar das forças, e de cama, ali está em casa junto dos seus filhos.

(As fotos desta secção não dizem respeito ao argomento)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Pequeno almoço de Domingo

Numa das capelas onde costumo celebrar a Santa Missa, em tempos houve um "comedor" num anexo, que hà varios anos está desactivado. O meu amigo Fancho, homem livre e muito prestável está sempre na Missa com a sua guitarra e faz de cada Eucaristia uma verdadeira festa. Nem sei de donde sai tanta alegria quando se trata de animar a comunidade.

Soube recentemente que a sua saúde está em perigo, pois tem um tumor...! Mais me espanta, porque a vida para ele continua com a mesma serenidade e empenho. Todos os dias, depois da Missa das 7,15h, ele prepera o pequeno almoço para cerca de 30 crianças. Sempre disse a todos que o faz porque recebe para o fazer! Até aqui tudo bem...porque todos pensam que ele tem donativos para o poder fazer já há vários anos...! Tudo isto porque descobri que: Näo é verdade, é ele mesmo que paga do seu bolso! No domingo fiz-lhe uma surpreza...fui tomar o pequeno almoço também! Claro que levei uns chocolates e algo mais...!!!



A sua generosidade certamente será recompensada lá no Alto!

Doze novos Filhos de Deus

Água havia em abundância

Mais uma vez a generosidade da Irma Goretta se fez presente para o Baptismo de 12 crianças que receberam o Santo Baptismo. Numa tarde alegre e divertida, num clima de festa foram à FONTE para nova Vida este meninos e meninas que durante um ano se prepararam para receber este Sacramento. Os cânticos estiveram a cargo das meninas da Casa Hogar e Àgua havia em abundância... ... assim a alegria redobrada pela solenidade que o momento requeria! Todas estas crianças vivem na zona "K", nas redondezas deste centro hospitalar que é um oasis no meio deste deserto imenso. As casas de madeira das redondezas nunca deixam adivinhar este cantinho onde o branco e a cor do carinho e da alegria deixam contagiar quem quer que seja. É de facto uma das pouquissimas casas feitas de cimento nesta zona. Como acolhe tudo e todos, desta vez, abriram-se as portas para numa tarde serena viver o dia do Senhor na partilha comum da mesma mesa e da mesma felicidade. Deixo as imagens...porque essas falam sempre mais...Um abraço e a minha gratidao ao Senhor por me ter dado esta alegria de poder estar com mais estes DONOS DO CEU...