Percorremos centenas de km. Mas aqui, nestas zonas tem que se calcular em horas, porque as estradas ora são de pó ou de lama até dizer chega. Viajamos de carrinha Toyota 4x4. Pelo caminho muitas aventuras!


Roda suplente vazia... Esperar uma hora primeiro que alguém parasse e desse uma boleia. Subir a uma camioneta e sentar-se em cima do pneu furado. Andar cerca de 15 Km aos pulos....uma hora e meia depois chega-se à "botega" do “jantero”

Voltar para trás e mais duas horas até chegar
Não é preciso participar nas 24h de Frontera, ou em qualquer etapa do Dakar....., basta estar por estas terras e necessitar de ir de um lugar a outro. Mínimo .....horas e horas nas estradas completamente esburacadas! Melhor com chuva...aí vê-se melhor os buracos! Alguns 'Pueblos' e o mais é plena Selva.


Pelo caminho uma pequena aldeola. Uma escola, muitas crianças e jovens com as suas fardas que são obrigatórias pelo estado...
Sobem 3, depois mais quatro.....mais tantos!
Vivem a dez km e, pelo caminho encontramos mais... Dentro algumas meninas mais novas... mas não dava para todos. Sobem atrás! Tive a ousadia de os contar: 21.
Atravessar um largo rio não há problema!



Após uma permanência pela zona da Selva, o regresso aos subúrbios desta cidade de Lima. Não sei se é preferível a pobreza das zonas rurais, ou a miséria suburbana desta cidade fantasma com os seus 140 mil habitantes... Há de tudo, é certo; mas certamente muito menos pão para cada dia! Não há recursos económicos, “plata” como dizem aqui para o famigerado dinheiro, que consiga fazer com que cada criança, jovem ou idoso tenha o suficiente para alimentar-se e viver dignamente!
Estamos a atravessar uma crise de alimentos.

Visitei de facto um “moinho” descascador de arroz, e a tentação foi muito grande...! Pensei logo de imediato em poder comprar muito mais, mas tudo o que tinha comigo ficou lá....

Era a antiga igreja, que depois de ter sido feito o novo complexo paroquial, deu lugar ao “Comedor” público É sustentado na totalidade pela Paróquia de Uchiza.

As plantações desta imensa zona, foram todas destruídas pelos americanos. Há uns quinze anos atrás testaram com produtos químicos modernos acabar com a coca, e com essa “praga” conseguiram fazer secar quase toda a vegetação. Aviões pequenos sobrevoavam diariamente os montes e vales deixando cair do céu um pó amarelado que em poucos dias, com a chuva fazia secar as plantações pela raiz. Resultado: durante anos nada crescia nessas zonas. O que crescia não desenvolvia nada. As árvores de fruta, sobretudo as bananeiras, as hortas em geral não desenvolviam como antes. As pessoas abandonaram estas terras.
Houve muita fome porque as terras nada produziam, muitíssima gente morria com doenças cancerosas.
Ter uma doença aqui no Peru, equivale a ter uma sentença de morte! Não há posses para ir ao médico.
Chego a pensar quanto seria bom o nosso Bom Deus permitir que durante três anos ninguém pudesse ficar doente.
Assim aquela criança que tinha febres altas há quatro dias não teria ficado nos braços de sua mãe, com receio desta gastar o que nem sequer tinha para gastar com ela...!
Assim o Artur de doze anos não teria sido encontrado pela irmã mais nova na cama ...e que não queria acordar... depois de não comer nada ao fim de uma semana porque vomitava tudo! “Padre foi o vómito...”
Assim aqueles três petizes de 10 anos não estariam depois da vigília de Pentecostes à uma da madrugada a dormir com fome em cima de cartões numa esquina... com uma lata de cola de contacto quase vazia ao lado!
Assim o rosto triste da Kandy já não seria mais a mesma triste Kandy ! Teria o carinho de uma mãe e não as bofetadas e desprezo duma madrinha que nunca chegou a ser gente...
Assim as roupas rotas e/ou remendadas de alguns jovens desta pobre América... seriam também a modas dos meninos ricos de hoje...!
Dos cerca de 120 mil habitantes que chegou a ter, bem dois terços fugiram para outras paragens . Agora pouco a pouco as pessoas estão a voltar, contudo a abundância do fácil lucro que as plantações de coca dava; deu lugar á mais nobre miséria franciscana! Há muitas crianças. Muitas delas órfãs de pai, ou porque foi morto pelos terroristas do Sendero Luminoso, ou porque o azar lhes bateu à porta, agarrados e mortos nas prisões...! Há uma certa impunidade, e isso leva ao desaparecimento de pessoas sem que se procure culpados.... pois de nada serviria saber que foram os narco-traficantes quem mandara eliminar...
Os grandes não estão aqui. As autoridades civis e militares convivem graciosamente! Não há vontade de cooperar para melhorar a vida do pobre. As estradas é bom que fiquem assim porque ...demora mais tempo a chegar alguém que não tem interesse algum em fazer cumprir a lei , mas beneficiar do mesmo ganha pão de todos: A droga. De três em Três meses mudam a “tropa”, para não haver compadrio... mas sabendo isso, há que aproveitar então ao máximo... e fazem-no!

















